Tô Pensando em Contos... Até tu, Bolovo?




ATÉ TU, BOLOVO?





     Nunca fui muito sortudo, e entenda isso como um eufemismo para azarado. Mas hoje estou de parabéns.
     Estou aqui, parado, com um pastor alemão em pé, me dando um abraço. Você pode achar fofo, mas não estou falando de um abraço carinhoso e, sim, de ameaça, com as patas no meu ombro e o focinho colado no meu, mostrando os dentes com a intenção de arrancar minha cara se eu me mexer.
     Acordei num dia normal, ou seja, atrasado. Arrumei-me correndo e saí para trabalhar sem café, pois ganharia mais tempo se comesse no caminho.
     Passei no escritório e vi o recado de um amigo, Tiago , que tinha me pedido para fazer a reforma no banheiro de sua casa. Decidi então ir até lá tirar as medidas, mas antes passaria num bar de esquina para comer algo – aqui, no interior, todas as esquinas têm um boteco, portanto não seria difícil matar a minha fome.
     A minha teoria logo seria confirmada, pois encontrei um tal de “Bar do Juvas” a três casas de distância de onde Tiago morava. Encostado no balcão, dei uma boa olhada nos salgados e optei por comer o meu favorito: um bolovo. Sempre achei mágica a ideia de um ovo cozido dentro de uma massa frita e, ainda, acompanhado de carne moída, coisas simples que formavam algo exótico e saboroso. Até fiquei na dúvida se uma fritura seria meio pesada para começar o dia, mas decidi que tinha acordado meio suicida (um dia normal, lembra?) e pedi de quebra uma Coca para acompanhar.
     Na hora de pagar, percebi que, na pressa, tinha largado a carteira em casa. O dono do bar, meio bruto, ficou com cara de poucos amigos, provavelmente pensando que eu, um almofadinha, queria passá-lo para trás.
     Procurando uma solução, vi meu celular em cima do balcão, empurrei-o em direção ao homem e dei-o como garantia até voltar com o dinheiro.
     Sem maiores preocupações, andei até o local da reforma, e vi que Tiago não estava. Mas eu sabia que ele deixava o portão destrancado e a chave da casa na caixa de correio. Abri o portão. Éramos amigos de infância, nossas casas estavam sempre abertas um para o outro. Até o cachorro dele, Brutus, – um mascote que eu nunca pude ter, pois sempre morei em apartamento – era como se fosse meu.
     Entrei, confiante, peguei a chave na caixa do correio e dei três passos em direção à porta antes do pastor alemão acordar no fundo da garagem e vir ao meu encontro. Curvei-me um pouco, adorava o bicho e iria afagá-lo, mas Brutus não parecia de acordo com a parte de eu ser meio dono dele. Ao me abaixar, apenas o ajudei a alcançar meu ombro, levantando-se sobre as patas traseiras e me colocando na posição que descrevi no início. Brutus deve ter entrado num estado de alerta quando o dono saiu e nem meu cheiro familiar deve ser suficiente para acalmá-lo.
     Agora estou aqui, parado, esperando meu amigo chegar e me salvar – o que pode acontecer só depois do horário comercial. Tentei alcançar meu celular, mas lembrei que, gênio que sou, o tinha penhorado no bar em troca de uma coca e um bolovo. Sou refém dessa fera que chamam de melhor amigo do homem.
     Para piorar, o mágico bolovo está fazendo uma magia no meu estômago, estou louco para visitar o banheiro do meu amigo, e não é para tirar medidas. Nem sei se vai dar tempo...
     Ops, não deu.












5 comentários:

  1. Olá, Paulo. Olá, Lelê.
    Estou rindo demais aqui com o conto. Isso que eu chamo de ter um azar maldito, então?
    Adorei o conto; bem escrito e uma ótima abordagem da naturalização do improvável.

    Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de reinauguração. Serão quatro vencedores!

    ResponderExcluir
  2. Paulo,realmente esse é um dia que não deveria ter existido para ninguém.Eufemismos a parte o conto é tragicamente cômico e realmente depois do relato da ação do Brutos no início o texto vai nos prendendo com a curiosidade do curso dos acontecimentos,antes e após Brutos.Até a próxima!

    ResponderExcluir
  3. Hahaha...abençoado "bolovo"..rs sempre achei essa combinação bombástica..e foi!!!
    Conto diferente..e mesmo gostando mais do gênero terror, acabei rindo muito nesse!
    Parabéns!!!!
    Beijo

    ResponderExcluir
  4. celestial, quem da conta?
    meu Deus, coitado, imagina se isso acontece comigo? aliás ninguém merece!!!!

    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
© To Pensando em Ler - 2017 | Todos os direitos reservados.
Desenvolvimento por: Jaque Design | Tecnologia do Blogger.
imagem-logo