Tô Pensando em Contos... Agnes e Ornella



AGNES E ORNELLA




     Chovia enquanto os homens da família baixavam o caixão de Alzira na terra. Fora uma cerimônia bonita, com direito a choro desconsolado das irmãs e filhas presentes, das tentativas estóicas de prender o choro de sabe-se lá quantos sobrinhos e genros. Agnes observara de longe enquanto irmãs de igreja, colegas de bingo e amigas do bairro jogavam torrões de terra sobre o caixão falecida. Reparou que Ornella, com um lenço no rosto, também observava a multidão enquanto enxugava lágrimas imaginárias.

     As duas senhoras se encontraram na saída do cemitério e andaram em silêncio em direção ao apartamento de Agnes.

     -A Alzira tinha bem mais parentes que a Carmelita. A coitada só tinha aquele marido imprestável... - Comentou Ornella enquanto se sacudia para fora do casaco molhado. - O que ele era mesmo?

     -Alguma coisa que não dava dinheiro. Professor… caixa de supermercado… algo assim.

     -Chaveiro?

     -Acho que era. Enfim… a Alzira tinha muitos parentes. Será que algum deles sabia?

     -Nenhum deles me pareceu exatamente genial. - respondeu Agnes. - Quer um chá?

     -Agradeço. - respondeu Ornella enquanto sentava-se à mesinha da sala e ligava a TV de Agnes.

     -Tem de camomila, cidreira e chá verde. - Veio a voz de Agnes da cozinha. - Qual você prefere?

     - Tanto faz.

     A avó de Ornella fizera questão de ensinar à neta tudo o que ela sabia sobre chá. Foram incontáveis tardes na casa da velha ouvindo sobre as origens de cada folha e erva, sobre a Companhia das Índias Orientais e a tradição chinesa. Ornella ouvira muito sobre como era uma heresia sem tamanho colocar açúcar no seu chá, que isso corrompia a própria alma da bebida e, se dependesse dela, seria o suficiente para condenar às profundezas do inferno o pagão que cometesse tal crime.

     Naturalmente, Ornella tomava o seu chá com muito açúcar. Adoçava a bebida o suficiente   para soterrar em açúcar qualquer sabor que pudesse ter.

     Agnes voltou da cozinha com a chaleira, duas xícaras, uma colher e o açucareiro balançando na bandeja com o passo irregular da artrite.

     - O que você está vendo? - perguntou Agnes se acomodando no seu canto do sofá.

     -Cidade Alerta. Esse Marcelo Rezende é um pão!

     -Eu não aguento esse cara. - resmungou Agnes. - Só fala de desgraça. Eu trouxe o açucareiro porque você sempre diz que quer mais doce.

     -Obrigada. - disse Ornella, que começou a despejar colher atrás de colher numa xícara que já tinha chá. - Mas ele vai falar do quê? O mundo hoje é só desgraça mesmo.

     -Não era assim quando a gente era criança. - Concordou Agnes. - Quanto tempo faz mesmo?

     -Eu sei lá quanto tempo faz que você foi uma criança! - gargalhou Ornella. - Só sei que pra mim já faz tempo demais!

     -Aqueles eram outros tempos. Como está seu chá? - perguntou por trás do vapor da própria xícara intocada.

     -Outros tempos mesmo. - concordou. - Vou deixar esfriar um pouco.

     -Não tinha tanta violência naquele tempo. A gente não ouvia sobre tanta morte.

     -O seu pai não morreu na guerra? - Ornella apontou.

     -Mas aquilo foi na guerra. Era diferente. Era violência organizada. Não era como hoje. Olha aí o que o cara está falando. Quando que uma filha ia matar os pais por causa do namorado naquela época?

     -Quando quatro velhas matariam por causa de dinheiro de bingo?

     Um silêncio desconfortável caiu entre as duas. Na TV, um apresentador de terno narrava uma perseguição policial com o ânimo de um comentarista de futebol.

     -Como está o chá? - Agnes perguntou novamente.

     -Ainda quente. Deixa ele esfriar mais um pouquinho.

     -É só assoprar. - Resmungou Agnes.

     -De qualquer forma, a gente não teve escolha. Todo mundo ganhava naquela joça, menos nós quatro! A gente tinha que fazer alguma coisa!

     -Verdade. Ainda bem que a Alzira conhecia o tal do Antão. Rapaz esperto.

     -Como você acha que ele fez? O dinheiro devia estar bem protegido lá.

     -Eu não sei, Ornella. Nem quero saber também. O importante é que depois a Alzira deu um jeito nele também. Acho que seu chá já esfriou, não?

     -Ainda não. O chato mesmo foi fazer a partilha do dinheiro depois. Ainda bem que você teve a ideia do seu bolão…

     -Não é um bolão. - corrigiu Agnes. - É uma tontina. A última a morrer fica com o dinheiro, você sabe.

     -Pois pra mim parece um bolão. A diferença é que você aposta em si mesma. A propósito, você pegou a chave do cofre que estava com a Alzira?

     -Peguei. Você está com a da Carmelita aí, não é?

     -Não me separo dela desde que a filha da Lita me entregou no hospital. Parece que ela tinha deixado num envelope com o meu nome na cômoda antes de sair de casa.  Coitada, cair de escada naquela idade.

     -Na nossa idade,

     -E coitada de você! Ainda não acredito que ela virou o pé descendo as escadas do seu apartamento!

     -Aquele elevador nunca funcionou direito. - disse Agnes, levantando-se do sofá. - Vou pegar um docinho na cozinha, Nella. Tenho chocolate e doce de leite. Você quer alguma coisa?

     -Não, obrigada. - agradeceu Ornella por cima do ruído das gavetas sendo remexidas.

     -O que você faria com o dinheiro, Nella? Já bebeu seu chá?

     -Já vou beber. Acho que eu viajaria, Agnes. Algum lugar quente. Esse frio todo de São Paulo faz mal para os meus ossos. E você?

     O som do cão sendo puxado num Colt. 45 estalou atrás da cabeça de Ornella.

     -Beba o chá, Nella. Eu garanto que vai ser indolor. Eu não vou nem te empurrar da escada.

     Ornella bebeu o chá. Estava doce o suficiente para esconder qualquer sabor, especialmente o da estricnina. A última coisa que notou foi que a xícara de Agnes permanecera cheia o tempo todo.

     Agnes agradeceu ao jovem que abriu a porta do depósito que as quatro haviam escolhido como território neutro para o cofre. Era uma caixa pesada maciça com quatro fechaduras diferentes, que só poderiam ser abertas com as chaves de cada uma das velhinhas.

     Agnes virou cada uma das quatro chaves, seu coração acelerando a cada batida, e abriu a porta para encontrar seu prêmio.

     Numa caligrafia caprichada, o bilhete dizia numa única linha:

                 “Esqueceram da mulher do chaveiro, não é?”












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7 comentários:

  1. Eu não sei descrever qual é a melhor parte do conto..rs
    Se a idade das meliantes ou a surpresa final!
    Muito bem feito, muito bem pensado.
    O crime está em todas as idades e de todas as formas, até num inocente bingo.rs
    Adorei!
    Beijo

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  2. Oii! Adorei o conto de hoje, vc e esses finais que surpreendem Bruno, parabéns!
    Bjs

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  3. Oi, Bruno!!
    Adorei o conto já desconfiava do final mas mesmo assim fiquei bem surpresa com os acontecimentos da história!!
    Bjoss

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Oi Bruno,
    parabéns pelo conto, ficou muito bom! Não sei por que, esse final me lembrou o filme Loucas por amor, viciadas em dinheiro. Não têm muito haver, exceto pelo fato do roubo e de não saber que pode ser qualquer pessoa em qualquer idade. Esse final e do fato do roubo do bingo, me lembrou o interior do Ceará que têm muuuito isso rsrs

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  6. Ai Bruno!
    Que delícia de conto.
    Me acabei de rir...kkkkkk
    Esqueceram da mulher do chaveiro...kkkkkkkk
    Como as pessoas andam ambiciosas, né? Até as velhinhas do bingo se matando por dinheiro, vai-te!
    Parabéns pela criatividade, mas é bem verdade, hoje se mata por tudo...
    “A única sabedoria que uma pessoa pode esperar adquirir é a sabedoria da humildade.” (T. S. Eliot)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE JUNHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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  7. Hello Bruno!!!
    O que me atrai nos contos é que nunca sabemos qual surpresa nos aguarda.
    A narrativa deixa a gente aqui pensando e pensando e esse final com esse bilhete...
    Eita!!!
    Ambição é algo tão do ser humano que mesmo quando chegamos na velhice ela permanece 0.0
    Adorei ^^

    lereliterario.blogspot.com

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