Tô Pensando em Contos... Vetus memoriae






Vetus memoriae




Qual é a sua lembrança mais antiga? Pare de ler e faça um esforço real agora. Não importa que seja uma centelha, uma sensação, uma lembrança boba ou mesmo irreal. Conheci uma garota cuja lembrança mais antiga era dela, ainda muito pequena, se jogando escadaria abaixo e então voando sobre ela. Que importa que seja um sonho ou uma fantasia? É o que você consegue resgatar de mais primitivo.

Escrevo nesta noite sob a luz de uma vela, mais nada; um único ponto para onde olhar em meio a escuridão. É o mais próximo que posso simular e dar de exemplo a você da coisa mais ancestral de mim.

Ao contrário de muitas pessoas, na lembrança mais velha que consigo buscar, eu não era uma criança; eu não tinha um corpo. Era somente um sentir sem pele, um ver sem olhos e o silêncio abismal. Não era mais do que um sopro.

Flutuava de leve no que hoje chamo de água (ali não havia nome para nada, absolutamente nada). Sei somente que flutuei muito, por muito tempo, mas não sei quanto, porque ali também não existiam os anos. Era tudo absurdamente escuro, e teria dito que era quente também, mas não há como saber: não havia um corpo para sentir e nem nada para comparar.

Um ponto de fogo amarelo surgiu ao longe e ficou próximo (não sei se ele se aproximou ou eu que fui flutuando até ele): uma chama de uma vela sem vela, somente a chama, pequena, frágil, bonita, com várias pequenas pedras arredondadas dançando devagar em volta dela. Fui ensinada a chamar essas chamas de estrelas; aquela chama em especial chamamos de Sol.

Um tambor começou a bater ritmado no meio de mim, ainda que não houvesse meio. Coração. O primeiro som.

Então, num susto violento, encolhi absurdamente e fiz algo que você também fez: caí num túnel em direção à pedra azul que dança em volta da vela e chorei, chorei muito, mas do choro eu não lembro mais.

Qual a sua lembrança mais antiga?




























5 comentários

  1. um conto reflexivo, a minha primeira lembrança foi a sensação de quando o cachorro me mordeu, eu era bem pequena e ele abocanhou meu braço
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  2. Isso sim é uma reflexão de primeiro escalão...A primeira lembrança. Aquela que vem do nada, sem se esforçar muito.
    Eu só consigo me lembrar de pirâmides..não me pergunte os motivos, mas as pirâmides estão aqui...naquela imensidão de deserto.
    Amei!
    Beijo

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  3. Ótima reflexão!!!
    uma ótima lembrança? Quando ia para escola eu era bem pequena e só tinha a preocupação de brincar e fazer desenhos quando meus lápis não sumiam rsrssrrsr.

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  4. Allana!
    Nossa! Buscar agora na memória é tão longínquo...
    Acredito que da infância, onde vivi momentos inesquecíveis ao lado do meu irmão e dos meus pais, minha irmãzinha ainda não tinha nascido e a chegada dela nos trouxe imensa felicidade.
    FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER!
    “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.” (Simone de Beauvoir)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de MARÇO, livros + KIT DE PAPELARIA e 3 ganhadores, participem!

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  5. Uau, Allana.
    Ótimo texto. Memória transcendental. haha
    Preciso dizer que gosto muito da sua escrita, viu?

    E minha memória mais antiga me remete à uma época que ainda nem falava, mas engatinhei até os pés do meu pai, que lavava louça, para acusar, apontando para minha mãe, que havia me dado uma pequena bronca porque abri a gaveta e espalhei todas as minhas roupas pelo quarto.

    Beijos! :)

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