Tô Pensando em Contos... Portaria



PORTARIA




     Raimundo já estava nesse emprego há uns três meses. Até agora estava tudo bem, não tinha cometido nenhum deslize, tinha que tomar cuidado com seus hábitos, eles não eram bem vistos e custou o seu emprego de porteiro naquele prédio do centro, agora que está trabalhando em um prédio de bairro nobre, precisaria de mais cuidado ainda para não ser pego lendo aquilo.
     Fazia sempre o turno da noite, assim ele não era interrompido o tempo todo para abrir o portão ou atender o interfone, só no começo da noite e pela manhã, no final de sua jornada.
     Um dos poucos moradores que sempre passava por alí na madrugada era Jorge, que devia ter mais ou menos a idade de Raimundo, por volta dos 30 anos. Ele era formado em administração, logo depois começou a trabalhar na empresa de seu pai, e agora já era chefe de um departamento importante. Ele sempre chegava bem tarde, ou por ter ficado trabalhando, ou por ter ficado no bar para aproveitar os dias que não estava trabalhando.
     Jorge sempre passava e cumprimentava Raimundo, mas lá pelo segundo mês, viu o porteiro lendo o jornal e resolveu começar a discutir política com o mesmo. Jorge sempre explicava para Raimundo a situação do país, que ouvia atento, arriscava algumas opiniões, às vezes até contraditórias com as de Jorge, mas era muito educado e sempre dava essas opiniões em forma de uma pergunta, mostrando a humildade. Jorge ría, e explicava para Raimundo como as coisas eram, e como ele estava errado. Jorge subia para seu apartamento feliz, por ter ensinado algo para aquele pobre coitado do porteiro. Raimundo só ría.
     Em uma noite chuvosa e barulhenta, Raimundo se descuidou, deixou a porta aberta enquanto lía, se perdeu no tempo. Jorge chegou pela garagem e passou pela cabine do porteiro, achou curioso que ele não estava lendo o jornal naquele dia, parecia que ele estava lendo um livro, se aproximou devagar. Raimundo não ouviu a aproximação de Jorge, a chuva encobria todos outros sons. Quando Jorge desejou boa noite, já era tarde demais para Raimundo, ele tinha sido pego.
     O porteiro se virou com uma cópia em inglês de Ulysses, o livro de James Joyce. Naquele momento Raimundo sabia que iria perder seu emprego, devido aos seus hábitos.
     -O que é isso, Raimundo?
     -Ulysses, nunca leu, senhor Jorge?
     -Já ouvi falar, você está lendo em inglês? Está fazendo curso? Acho que poderia recomendar alguns livros mais fáceis.
     -Ah… estou sim, eu falo inglês já, obrigado.
     -Morou pelo exterior? - Jorge estava cada vez mais surpreso.
     -Na verdade fiz um intercâmbio em uma faculdade da França, o inglês veio como consequência, fora o francês….
     -Francês? Faculdade na França? Você é formado, Raimundo?
     -Na verdade eu estou terminando meu Doutorado em Ciências Sociais.
     -Doutorado? O que você faz aqui então?
     -Aqui onde?
     -Na portaria!
     -Eu precisava de um emprego, pareceu uma boa opção, aqui é tranquilo, posso escrever, ler meus artigos, livros… Assim eu consigo ganhar um dinheiro enquanto faço minhas coisas.
     -Mas…. - Jorge ficou boquiaberto- Boa noite, boa leitura!
     Jorge se virou e continuou seu caminho em silêncio, sua postura era rígida, como se tivesse chocado, se sentindo um idiota por todas conversas que ele teve com o porteiro. Um simples porteiro.
     Raimundo nem continuou sua leitura, já começou a arrumar suas coisas, sabia que logo seria demitido. Sempre a mesma história: apenas um porteiro. Assim que as pessoas o viam nesses lugares, e ele jamais poderia ser mais que isso. Isso era inaceitável. Ele tinha que ser menos. Apenas um porteiro.
















6 comentários:

  1. Muito bom o conto!!!
    Mas Raimundo poderia ter escolhido um livro em português kkkkkkkk, coitado só queria uma vida normal, no começo pensei totalmente outra coisa.
    Até mais!!

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  2. Tenso. Às vezes a gente é obrigado a se colocar num degrau abaixo pra ser aceito. Quantas vezes não se é necessário "ser menos" pra ser aceito.
    E não é que se é menos sendo porteiro, mas as pessoas assim enxergam e junto com isso os estereótipos.

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  3. o Felipe no comentário acima disse tudo, às vezes ser mais do que esperam da gente é prejudicial!
    no caso, ser porteiro o colocava em posição inferior dos morados, ser mais do que isso, um estudante graduado, pós graduado, com uma bagagem cultural era inaceitável
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  4. Um conto triste e real. Quantas pessoas se formam, lutam em uma faculdade, cursos..e acabam tendo que "se diminuir" para serem aceitas em uma sociedade que sempre espera pouco das pessoas.
    Ou indo pelo lado social, precisam sonhar pequeno, num país que não dá oportunidade a quem batalhou a vida toda.
    Amei!
    Beijo

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  5. Paulo!
    É o mal de julgarmos as pessoas pelo que fazem ou até pela aparÊncia...
    Quem se importa se o porteiro estudo, faz faculdade, doutorado ou outro idioma?
    Acham apenas que ele é um coitado por estar ali naquela profissão.
    Sensacional!
    “Não há nada bom nem mau a não ser estas duas coisas: a sabedoria que é um bem e a ignorância que é um mal.” (Platão)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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  6. Wow, que certeiro!
    Meu pai não tem mestrado, mas anos atrás, em uma época de crise, ficou desempregado e acabou trabalhando como porteiro em um condomínio de um bairro emergente. Não era raro o espanto (que beirava a indignação) dos moradores com sua eloquência e capacidade de discutir temas complexos. Triste.

    Ótimo texto, aliás.

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