Tô Pensando em contos... O Eterno Retorno


O Eterno Retorno



     Atravessei a entrada do restaurante com tanta pressa e raiva, que se a porta automática já não estivesse aberta, eu teria, com toda certeza do mundo, estourado seu vidro e provavelmente não ia reparar que estava sangrando por uns dois quarteirões, que foi a distância que levei para digerir tudo o que tinha acontecido e descontar em uma lata de lixo que chutei pro meio da rua.

     – Já sei! – pensei – Vou ligar pra minha terapeuta.

     Mas obviamente estava sem bateria, afinal o Angry Birds rolou solto no celular essa noite. Nem um Uber eu podia chamar. Resolvi procurar um ponto de ônibus mesmo. Enquanto caminhava lembrei-me de uma coisa que minha terapeuta disse, Freud (aquele Psicanalista doidão) falou sobre uma coisa chamada Compulsão à Repetição, que resumidamente é quando a gente faz uma cagada uma vez, sofre, chora no ombro da amiga, chora mais um pouco, diz que vai superar, bebe um pouco, supera, abre o Tinder, conhece um cara fantástico, o amor da sua vida, vai lá e PÁ! Cagada de novo! 

     E nisso você passa a vida inteira repetindo a cagada. Pior, parece que o cara, o Freud, nunca chegou numa resolução pra esse MEU problema. Primeiro ele achou que repetimos para tentar fazer dar certo a cagada que fizemos, aí depois ele descobriu que NÃO, que mesmo a gente fazendo as coisas certas, depois a gente vai lá e erra IGUALZINHO!

       Moral da história, Freud morreu achando que a gente erra de propósito para tentar arrumar aquela cagada inicial que a gente fez, só que “Querido cérebro/inconsciente”, eu não sou uma máquina do tempo para voltar e mudar tudo. Eu só consigo culpar o Pedro, meu primeiro namorado, por isso. Maldito dia que caí do Trepa-Trepa e ele buscou um band-aid pra mim. A professora do pré falou:

     – Que rapaz mais lindo, cuidando da Maria Luiza.

     Foi meu namoro mais rápido, durou exatamente 5 minutos. E agora, vinte anos depois estou aqui, sempre me apaixonando por caras que querem cuidar de mim, mas depois me deixam sozinha enquanto correm atrás dos amigos para jogar bola. Ok, nem sempre é por causa de futebol. Na verdade só o Pedro foi embora por causa disso, mas os outros, sempre tinham coisas mais importantes, como uma viagem pra Disney com os tios, estudar para prova de Física, estudar para o vestibular de Medicina, voltar pra casa por que é aniversário da esposa. Dessa vez a desculpa era que a avó tinha escorregado na cozinha, como se o avô dele não pudesse ajudar.

     O fato é que eu estava puta da vida, tinha ficado mais de 40 minutos na mesa esperando um sinal de vida do moço, não aguentava mais a atendente me perguntando se eu não queria me sentar no bar ou se eu já queria fazer o pedido. É vergonhoso sentar-se num restaurante e ficar esperando alguém que nunca vai chegar. E eu devia ter deixado a bateria do celular carregada 100%, não é a primeira vez que isso acontece! E segundo Freud: não vai ser a última também.

     Então avistei meu ônibus se aproximando do ponto. Na ânsia de chegar em casa logo, atravessei a faixa de pedestre com o sinal fechado para mim que sou jovem. PÁ.

     Lá estava eu, estirada no chão, atropelada por uma bicicleta. Se fosse um ônibus, queria ver meu “cérebro/inconsciente” me fazendo errar isso de novo. Ia ter que me trazer uma zumbi. Foi então que um rapaz muito bonito aproximou-se, com aquela roupa de ciclista que destacava o...  corpo todo dele.

     – Acho que só ralou o seu joelho – disse ele, com o sorriso mais lindo do mundo. – Eu tenho álcool em gel e um band-aid na mochila, vou limpar e vai ficar tudo bem.

     Eu sorri de volta. Terminado o tratamento, ele chamou um Uber para me levar pra casa. No caminho eu só conseguia pensar:

      – Será que um dia vou conseguir sair desse eterno retorno? Acho que não.










   


https://www.facebook.com/felipe.amaral87?fref=ts

















7 comentários:

  1. Rsrsrsrs Confesso que sorri lendo esse conto! E acho isso incrível!
    Porque reflete a maioria de nós, nossos erros, nossas tentativas muitas vezes, frustradas, de querer acertar no amor, na vida...em nós!
    E num eterno errar, errar..a gente vai acertando!
    Beijos

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  2. Olá, Felipe.
    Gostei do conto; leve, mas cheio de verdades. Quem nunca entrou nessa sucessão de erros. Acho, muitas vezes, que erramos por querer mesmo. rs Talvez errar seja mais divertido.

    Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de julho. Serão quatro livros e dois vencedores!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Oii Felipe!!! Que lindo seu conto! Até suspirei com tanta informação cotidiana q mtos de nós vivemos...
    Eu amei do começo ao fim! E sim, errar, errar de novo, errar novamente, e de novo e de novo faz parte do nosso aprendizado sempre!
    Parabéns!
    Bjs!!

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  5. olá, o conto fez com que eu me identificasse e muito, pois sempre vivo essa lei de retorno!
    de errar, jurar não fazer mais e novamente errar
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  6. Olá!
    O que dizer do conto? Sempre nos identificamos, de alguma forma, com o citado no mesmo. Quem nunca viveu esse eterno retorno em algum momento de sua vida? Errar e achar que não irá mais acontecer. E errar novamente! E assim vamos aprendendo a viver! Ou não...Beijos.

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  7. um conto leve e que nos faz pensar nos momentos semelhantes que vivemos hahah adorei!

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