Tô Pensando em contos... A Primeira Aventura - Parte 1



A PRIMEIRA AVENTURA




     Aqui no sítio é tudo muito gostoso! Acordo assim que o galo canta. A vó vai logo tirar o leite da Rosinha pro café. Rosinha é nossa vaquinha.  Depois vou pra escola, que é perto, por isso vou a pé mesmo. Quando volto o almoço já tá pronto. Passo a tarde fazendo lição, ou brincando com os bichos, ou ajudando a vó no que ela precisa.
     É só eu e ela aqui. A vó é boa demais pra mim. Conta história de quando era nova, dos “namoricos”, das brincadeiras. De vez em quando ela inventa, diz que tem uns duendes no mato, umas fadas... sei que ela ta inventando, mas ela jura que é verdade.
     Ela tem um a carro engraçado, que vive enguiçado. É cheio de bonecos pendurados.
     Quando ela precisa comprar alguma coisa, ou ir no banco buscar seu “dinheiro de todo mês” ela me leva junto pra passear e tomar sorvete na casquinha. E a gente sempre vai no carro.
      Outro dia perguntei pra ela da minha mãe e do meu pai. Ela disse que meu pai ela não sabe quem é, mas minha mãe era uma menina linda... Era “assanhada e namoradeira”, mas era feliz e trabalhadeira. Tava enrabichada com um homem que ela não sabe quem era, mas sabia que ele existia porque sua menina ficava suspirando e cantarolando o tempo todo.
     Ela chamava Ana. Minha vó até me mostrou umas fotos dela, era bonita mesmo. Tinha fotos dela pequena, outras já grande e mais umas dela grávida. Em todas ela estava rindo.
     Gostei de ver como ela era. Ana, minha mãe. Gostei de ver a barriga comigo dentro na foto. A última foto dela eu estava lá. Só que eu não sabia. Ela morreu logo que nasci.
     E não disse quem era meu pai.
     Fico pensando se ele era ruim. Mas se ele fosse ruim, ela não seria feliz. Ou seria? Nunca vamos saber.
     — Boa tarde, menino! É aqui que mora a Senhorita Ana Vieira? – disse um homem vestindo uma roupa preta. Parecia um defunto.
     — Tarde, moço. Morou. Mora mais não. Esse nome é da minha mãe, mas ela não tá.
     — E tem algum adulto pra falar comigo?
     — Isso tem, vou chamar minha vó.
     Chamei minha vó e ela foi falar com o moço, mas pediu que eu ficasse lá dentro pra não atrapalhar. Não fui lá fora, nem entrei na cozinha quando minha vó levou o moço pra lá e serviu um café. Mas fiquei ouvindo de longe. A vó só disse pra eu não ir atrapalhar, não disse nada de não ouvir.
     — Então, Dona...
     — Jacira, moço; meu nome é Jacira. Sou a mãe da Ana. Finada Ana. Minha menina morreu tem uns anos. Mas por que o senhor quer saber? – perguntou minha vó enquanto mexia nos dedos sem parar.
     — Senhora, meu nome Jorge. Sou advogado e amigo do Senhor Roberto Matos. A senhora o conhece? Já ouviu falar dele? – perguntou o moço.
     — Não. Nunca. Não me lembro, mas sabe como é... a memória não ajuda muito.
     — Dona Jacira, – disse o homem enquanto dava um gole no café quente. – esse menino por acaso é seu neto?
     — É, sim, senhor. Meu menino. É tudo que minha Ana me deixou.
     — E o pai? A senhora sabe quem é?
     — Não. Mas por que tanta pergunta?
     — Como eu disse, sou advogado do Senhor Roberto Matos, e ele me mandou aqui para conversar com sua filha. Então acho que a senhora deveria falar com ele. – o moço pegou um celular e começou a ligar. Sei que é um celular porque na cidade quase todo mundo tem. Aqui a gente não tem, mas tem um telefone preto que fica na estante da sala. Quase nunca toca, mas ele ta ali pra “emergência” como a diz a vó.
     — Fale com ele. – ele disse e passou o telefone pra vó.
     Minha vó tava com o celular no ouvido e de repente ela começou a chorar baixinho. Fiquei com muito medo. O que tava acontecendo?  
     — Tudo bem, Seu Roberto. Vou levar o Betinho pro senhor ver. Seu Jorge vai deixar tudo anotado aqui e vou o mais rápido possível. Quero muito saber essa história toda. Tá certo. Até mais. – ela disse e entregou o telefone pro moço.
     — O senhor deixe tudo anotado que vou logo.
     — Sim, Dona Jacira. Vou deixar também o dinheiro pra passagem. Afinal, avião é um pouco caro, não é mesmo?
     — Avião? Que avião? Vou de avião nada. – ela falou já ficando de pé e bem nervosa.
     — E senhora pretende chegar lá como?
     — No meu carro. Claro!
     — Aquele Fiat que ta lá fora?
     — Sim. Ele mesmo.
     — Não acho que ele consiga completar essa viagem tão longa...
     — Disso sei eu. O senhor não precisa desdenhar do meu carrinho.
     — Tudo bem. De qualquer maneira vou deixar no envelope essa quantia aqui para ajudar na despesa. Fica bom assim pra senhora?
     — Tá. Tá bom então. Estarei lá. Pode dizer pro seu patrão que chego logo, e diga pra me esperar.
     Ele sorriu e disse:
     — Dona Jacira, seu café é uma delícia e seu coração é de ouro. Esperaremos a senhora ansiosamente. Vou indo. Muito obrigado.
     A vó estendeu a mão pra ele. Depois disso o moço se foi e minha vó sentou ali mesmo e ficou       olhando pra parede por um tempo. Não agüentando mais de curiosidade, entrei na cozinha e chamei por ela.
     — Oh, meu menino. – ela disse e passou a mão na minha cabeça. – Nós vamos viajar, viu?! Vou falar com sua professora amanhã e arrumar nossas malas. Precisamos resolver umas coisas. Nós dois juntos.
     — E vamos onde? Como? Por quê?
     — Calma, nós vamos pra cidade grande. Vamos de carro. E tem uma pessoa que tem muita coisa pra contar pra gente.
     — Quem é?
     — O nome dele é Roberto.
     — Roberto sou eu.
     — Não, você é Betinho. Sua mãe sempre disse que você era Betinho. Passou a gravidez toda falando Betinho pra cá, Betinho pra lá... Quando você nasceu e ela se foi, eu já sabia como seria seu nome. Mas agora eu sei o porquê.
     — Por quê?
     — Nós vamos conhecer o Seu Roberto Matos, seu pai.

     Fiquei ali parado olhando pra minha vó. Não sabia o que dizer. Nunca saí do lugar que nasci, a não ser pra ir comprar coisas e sorvete na cidade; mas nossa cidade não era grande. Tinha visto o que era cidade grande na televisão, e isso me dava medo; mas mais medo me deu de saber que eu tinha pai, que meu nome era o mesmo do dele, e que eu ia onde ele estava.
     — Mas... vó...
     — Betinho, não se preocupe, você não vai ficar lá com ele. Seu pai quer só conversar e te conhecer. Ele tá doente. Não sei se estou fazendo a coisa certa, mas meu coração diz que Ana ia gostar disso. E tem mais, a gente precisa de uma aventura nessa vida, não é mesmo? – ela disse e me abraçou. – Você não quer uma aventura com sua velha vó?
     — Quero sim! Vamos tomar sorvete na viagem?
     — Claro!
     Saí da cozinha e fui lá fora falar com a Rosinha. Tinha que contar pra alguém esse tanto de coisas.       A visita do moço com roupa de defunto, a viagem, um pai com meu nome... Era muita coisa.
No dia seguinte minha vó foi cedo falar com a professora e quando voltou começou a arrumar as coisas. Pediu pra vizinha cuidar dos nossos bichos e ela disse que ia fazer isso. Abraçou minha vó e desejou boa viagem. Me abraçou e disse que tudo ia dar certo.
     Eu estava tão feliz com tanta coisa acontecendo.
     Depois das malas prontas, ela começou a encher o carro com as malas, bolo, garrafa de água, biscoito... Tinha de tudo naquele carro.
     — Uma vó prevenida, vale por duas, meu filho!
     — Posso ir comendo biscoitos?
     — Entra no carro, pega um pacote e fica com ele no colo. Depois você come.
     Entrei no carro e ela também. Ela colocou a chave e girou.
     Nada aconteceu.
     Ela falou com o carro alguma coisa que eu não entendi e girou de novo. Dessa vez ele ligou. A vó riu e saiu, abriu a porta, fechou o portão e voltou pro carro.
     — Chegou a hora da aventura!
     Dei risada e saímos deixando uma fumaça preta pra trás.


CONTINUA...





















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3 comentários

  1. Ameeeei Lelê!!!
    Quem não iria qrer uma aventura bacana dessas ....
    Depois das malas prontas, ela começou a encher o carro com as malas, bolo, garrafa de água, biscoito... Tinha de tudo naquele carro.
    — Uma vó prevenida, vale por duas, meu filho! ...

    Vi minha vó nesse conto!!
    Bjs!!!

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  2. Ei Lê!
    que tal colocar a continuação logo amanhã? Fiquei tão curiosa por poder acompanhar essa aventura da vó e do Betinho para conhecer o pai, e no carro velho..quero ver só no que vai dar...
    “A poesia contém quase tudo que você precisa saber da vida.” (Josephine Hart)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA novembro 3 livros, 3 ganhadores, participem!

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  3. Ah as avós..rs
    Sei lá, ando me achando a "avózinha" do momento e me inspiro muito na minha avó pra cuidar da minha netinha que nasceu tem poucos meses.
    Aí leio uma história assim e estou maluca para ler a continuação e se você só postar isso semana que vem, o bicho pega!rs
    Beijo

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